domingo, 26 de junho de 2011

Livro - Ressurreição, de Liev Tolstoi

Brasilia, 26 de junho de 20ll.


Favor mandar repassar para os demais participantes do Clube do Livro a anexa resenha, com vistas à reunião de 04/07 próximo.Abraços do
Antonio A. Veloso

Texto: “Ressurreição”, de Liev Tolstoi (Editora CosacNaify, l964/20l0, 431 páginas).

-  Trata-se de lançamento recente no Brasil, em edição primorosa, com tradução direta do russo, do escritor premiado e tradutor especializado Rubens Figueiredo. Compõe a trilogia de obras-primas de Tolstoi: “Guerra e Paz”(l869), Anna Kariénina (1877) e “Ressurreição”(l879);
-   “Ressurreição” é um capítulo importante na trilogia, em que o aristocrático autor de clássicos da literatura universal “se converte a uma forma primitiva de cristianismo (sendo excomungado pela Igreja Ortodoxa russa) e, aos 82 anos, foge de sua propriedade rural, em Iasnia Poliana, para morar à beira de uma linha de trem;’
-   na expressão de Mikhail Bakhtin, “um exemplo mais perfeito e mais coerente  de romance sócio-ideológico”, refletindo um vivo e amplo painel da realidade russa da época (século XIX), devastador na crítica de uma sociedade desigual, injusta e conflitiva. Descreve um mundo de  desigualdades e atribulações, de miséria humana, de injustiça social:  julgamentos defeituosos, cadeias miseráveis,prisioneiros políticos,criminosos , estruturas deformadas de poder e força, desigualdades no campo e da sociedade aristocrática, vida na capital, pessoas condenadas aos trabalhos forçados na Sibéria;
-   com risco para derivar para um incontrolável melodrama, o autor -  superior e profundo  -  instigante em sua obra e na sua vida, desenvolve narrativa rica de agudas reflexões, engrandecendo cada personagem e cada situação. O relato é denso, profundo, embora acentuadamente moralista;
-    em síntese:  numa noite de Páscoa, em que se celebra a ressurreição de Jesus Cristo, o príncipe Nekhliúdor,  ainda adolescente, seduz a criada Katiucha Máslova e esta, grávida, é expulsa a casa das tias do nobre, ficando desamparada e envolvendo-se na prostituição. Algum tempo depois, termina sendo acusada de envenenar um cliente.  Nekhliúdov é convocado para o júri do injusto julgamento de Katiucha, do qual resulta a condenação de quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Tentando ajudá-la, o príncipe passa a viver uma aguda crise de consciência, com forte sentimento de culpa, o que o leva a acompanhá-la em todos os seus passos e a percorrer, com Katiucha, o longo e penoso caminho da sua ressurreição, inclusive oferecendo-se para casar com ela, a título de reparação;
-     Tolstoi “pinta um quadro repugnante da sociedade russa”, desenvolvendo um devastador ataque ao governo, à sociedade, aos tribunais, ao regime carcerário  e criticando o artificialismo  e a falsidade das classes dominantes;
- a incrível história dos dois personagens principais  -  o príncipe Nekhliúdov e a criada e prostituta Katiucha  -  poderia parecer inverossímel  e exageradamente melodramática, não fora o fato de basear-se em acontecimentos reais, segundo relato de amigo do autor, advogado A. Kóni;
-    nas suas últimas páginas, “Ressurreição” menciona o “Evangelho de São Mateus” e abre a perspectiva de vida nova para Nekhliúdov:  “Como se, após longa aflição e sofrimento, ele de súbito tivesse encontrado a calma e a liberdade;”   ao final de contas, o texto “enxerga, além do caos, o advento da graça”.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Livro - A República dos bugres

De: Antonio Augusto dos Reis Veloso.
Brasília, 3l de maio de 2011.

Parabéns, a você e aos demais membros da Diretoria da Abace,pela renovação do mandato.
A propósito do “A República dos Bugres”, envio-lhe, para conhecimento e distribuição entre os participantes do Clube do Livro, algumas anotações que me ocorreram. O abraço do
Antonio A. Veloso.

“A República dos bugres’, de ruy tapioca (editora rocco, 1999/2000, 530 páginas):
--  o autor, ruy tapioca, nascido em salvador (ba) emç 1947 e residente no rio de janeiro desde 1958, vem-se dedicando atualmente à literatura; com a sua estréia com “a república dos bugres” foi o ganhador de diversos prêmios literários (prêmio guimarães rosa de 1998, do governo do estado de minas gerais; o prêmio octávio de faria –  1998, o prêmio biblioteca nacional – 1997 e o prêmio literário cidade do recife – ficção 1998 – menção honrosa);
-- trata-se, efetivamente, de obra curiosa, em que o relato é feito em diferentes vozes,  de forma brejeira e brincalhona, com tom espirituoso  e galhofeiro, retratando a visão de personagens especiais, como o quincas, filho bastardo de dom joão vi, que se torna mestre-escola; o padre negro jacinto venâncio, filho de escravos, e contando ainda com a forte e contundente participação  do desabusado bacharel português viegas de azevedo, autor, entre outras, de três arrazadoras teses sobre a índole  do brasileiro e do português : “porque portugueses e brasileiros,padre, vieram ao mundo para esculhambar com o destino da humanidade: os primeiros, pela burrice atávi

ca, que é o principal atributo distintivoda raça; os segundos, pela canalhice genética de seus caracteres, safadeza vocacional que já correu mundo! – vociferou o bacharel’.  aPRESENTAVA, A PROPÓSITO, TRÊS TESES PARA EXPLICAR A SAFADEZA LATENTE DO BRASILEIRO: A “TEORIA DOS GENES PATIFES”, A “TEORIA DOS MIASMAS PESTÍFEROS E DOS AVENTOS ACANALHADORES” E A “TEORIA DAS MATRIZES RACIAIS VAGABUNDAS”.  
--  A NARRATIVA TEM BASE EM CUIDADOSA PESQUISA DE FATOS HISTÓRICOS E É APRESENTADA COM CRITIVIDADE E SINGELEZA, SEM ORDEM CRONOLÓGICA RÍGIDA, ALTERNANDO DATAS COM INDAS E VINDAS SOBRE DIFERENTES EVENTOS, DESDE A CHEGADA DA FAMILIA REAL PORTUGUESA AO BRASIL, EM 1808 , ATÉ A PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA, EM 1889;
--  O CAPÍTULO INICIAL JÁ É UMA ENTRAD PITORESCA E TRIUNFAL, EM TERMOS DE LINGUAGEM TIPICAMENTE PORTUGUESA, DESABRIDA E DE ÉPOCA;
--  SÃO MUITOS OS PERSONAGENS FAMOSOS E  PITORESCOS QUE TRANSITAM POR TODO O CURSO DA HISTÓRIA  -  CAXIAS, MACHADO DE ASSIS, CARLOTA JOAQUINAE SUAS PAIXÕES, DOM JOÃO VI, PEDRO I , PEDRO II, MARECHAL DEODORO DA FONSECA, OS LÍDERES  ZUAVOS BAIANOS (DOM OBÁ II DÁFRICA,, ZOROASTRO MEIA-BRAÇA), AS NEGRAS venÂNCIA, LEOCÁDIA E MUITAS OUTRAS;
--  SÃO MARCANTES AS DESCRIÇÕES DA GUERRA DO PARAGUAI, PALCO DE GRANDES ATROCIDADES, ASSINALADAS COMO VERDDEIRAS CHACINAS DE MULHERES E CRIANÇAS, A PONTO DE LEVAR O JOVEM CAXIAS A SE DEMITIR DO COMANDO DAS TROPAS BRASILEIRAS, POIS SABIA QUE, APÓS A ENTRADA EM ASSUNÇÃO, A MORTANDADE SE AGRAVARIA,  UMA VEZ QUE O DITADOR SOLANO LOPES SÓ SE ENTREGARIA MORTO;
--  ENFIM,  O TEXTO DE “A REPÚBLICA DOS BUGRES” É UM VASTO E GOSTOSO PANORAMA DA REALIDADE HISTÓRICA E DA SOCIEDADE DO PAÍS NAQUELE PERÍODO, CONDUZINDO O LEITOR POR CAMINHOS INUSITADOS, EM TOM JOVIAL, COM RIQUEZA DE LINGUAGEM.

sábado, 16 de abril de 2011

Livro - Meu tipo de garota, de Buddhadeva Bose

Completei hoje leitura muito especial e agradável: ¨Meu tipo de garota¨, de Buddhadeva Bose, Cia. das Letras, l95l-2009-2011, l46 páginas.

 

 O autor (l908-l974), nascido em Bengala, foi um dos mais destacados escritores bengalis do século XX. ¨Meu tipo de garota¨é um texto da maior delicadeza, suave, sutil. Reúne quatro personagens aparentemente estranhos e que se encontram na sala de espera da estação ferroviária de Tundla, na Índia, numa noite fria de inverno, enquanto aguardam a ferrovia voltar a funcionar. Inspirados pela entrada repentina de casal de jovens na sala, decidem, para matar o tempo, que cada um dos quatro passageiros passe a contar uma história de amor de que tenham participado ou de que sejam testemunhas.  São quatro pessoas com diferentes profissões, de regiões diferentes: um empreiteiro, um burocrata do governo, um médico renomado, um escritor praticamente desconhecido. As histórias, refinadas e conduzidas com acuidade e sutilezas,formam  um painel delicado das emoções humanas, refletindo as variadas formas de amor. Em síntese: o empreiteiro relata a história de Makhanal, filho de marceneiro formado na faculdade, bem sucedido nos negócios e cada dias mais rico, mas que não consegue romper a resistência  da família vizinha e conquistar a filha; o funcionário do governo conta a história do seu próprio amor na adolescência, uma bonita garoto que o amava mas que termina casando com outro homem; o médico conta uma história de final feliz, embora repleta de embaraços e dificuldades; o escritor Bikash, poeta melancólico e sentimental, faz um relato singular de três  amigos dedicados  e que exercitam um amor platônico por uma moça de família rica e que se casa com um morador de Calcutá.  Os relatos, independentes e autônomos, mostram ao final uma profunda consistência, revelando importantes aspectos da sociedade indiana do principio do século XX. Trata-se de um dos livros mais importantes de Bose,  num texto originalmente publicado em l95l. A meu ver, ótimo :  recomendo ! Abraços.  

Antonio A. Veloso.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Livro “Percorrendo Memórias” Dr. Aloysio Campos da Paz Júnior

Brasília, 12 de abril de 2011.


Participei, no último dia 6/4, no Salão Nobre do Senado Federal, do lançamento do recente livro do Dr. Aloysio Campos da Paz Júnior, “Percorrendo Memórias” (gráfica da Rede SARAH, Sara Letras, 2010, 190 páginas). O livro, em fino acabamento e esmerada apresentação gráfica, conta com fotos do arquivo pessoal do autor e do arquivo da Rede SARAH: o prefácio, intitulado Um Homem Diferente, é de autoria do filósofo Leandro Konder, e o posfácio reúne comentários da professora Adélia Bezerra de Meneses. Leandro Konder assinala: “o doutor Aloysio Campos da Paz é uma pessoa diferente de todas as outras... Seu livro está cheio de referências a momentos cruciais do século XX. Aloysio pertence, eticamente, ao grupo daqueles que costumamos classificar de esquerda democrática, isto é, àquele setor da sociedade que luta não só pela liberdade para todos, mas também pela igualdade (ou, dito em outros termos, pela diminuição das desigualdades sociais).” A professora Adélia Bezerra de Meneses, respondendo à pergunta sobre se valeu a pena o livro de memórias, pois “memórias” podem ser algo muito chato”, foi taxativa: “Depende de quem são as memórias. Efetivamente, sendo seu autor quem é, trata-se aqui, ultrapassando o individual e o pessoal, de memórias de uma geração, da qual ele é porta-voz e agente.” O texto é, de fato, representativo, mostrando desde a infância do autor, sua família, sua vida no Rio de Janeiro e posteriormente em Brasília, os estudos, a estada no exterior, doutorado em Oxford, toda a convivência com os colegas e grandes mestres, a experiência e vivência com os acontecimentos militares da década de 1960, os chamados “anos de chumbo”, a retomada da democracia e os seus conflitos, o advento da Constituição de 1988 e tudo mais. Paralela e concomitantemente, descreve a sua luta profissional na medicina, os seus projetos singulares, a evolução das idéias e planos até a implementação da Rede SARAH nos diferentes espaços do país (Brasília, Salvador, São Luis, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Belém, Macapá). Conta, ainda, a  “aventura” da implantação dos regimes de tempo integral e, por último, da dedicação exclusiva nos projetos do SARAH, o “Sarinha”, o “Sarão” e tudo mais. No livro, tudo é relatado em tom ameno e discreto, com jovialidade e bom humor, mesmo quando se tratava de abrir mão do seu lucrativo consultório particular ou quando a matéria era política/militar. Refletindo o seu sentido de gratidão, doutor Aloysio faz, delicada e discretamente, o registro em favor das pessoas que colaboraram no governo federal com o seu programa e com a montagem da estrutura financeira para a respectiva implementação: “Para que o programa começasse a ser implementado, pois ele circularia através da Secretaria de Planejamento da Presidência da República, teve um papel fundamental Antonio Augusto dos Reis Veloso, irmão do então ministro do Planejamento, João Paulo dos Reis Velloso. Quando a proposta estava pronta, foi defendê-la perante o ministro.” A foto da contracapa, de sua autoria, mostrando o casal de jovens em cadeiras de roda se beijando amorosamente, é muito bonita, marcante e emblemática. Digna de registro, igualmente, a delicadeza com que o autor se refere à doutora Lucia Willadino Braga, prata da casa, e hoje cientista de renome, desde cedo dedicada à Rede SARAH e que ora dirige com dedicação e competência. Em Oxford, doutor Aloysio já havia recebido do doutor Trueta a sentença: “Você vai se sentir professor somente quando formar alguém melhor que você.” Segundo o doutor Aloysio, o destino se cumpriu na pessoa da doutora Lucinha, eleita em novembro de 1999 doutora honoris causa da Universidade de Reims, na França, por seus trabalhos na área da neurociência. A meu ver, valeu a pena o registro das memórias.
Abraço para todos.
Antonio A. Veloso

domingo, 10 de abril de 2011

Livro - Churchill de Paul Johnson

É com entusiasmo que faço a resenha de ótimo livro que acabei de ler, no gênero de biografia: ¨Churchill¨, de Paul Johnson, Editora Nova Fronteira, 2009/20l0, l59 páginas. 


 O autor, jornalista e historiador inglês, opera verdadeiro milagre em conseguir reunir em pouco mais de l50 páginas os fatos relevantes da trajetória grandiosa dos 90 anos de Churchill (Winston Leonard Spencer Churchill, l874-l965), ö grande homem do século¨, em contraste, por exemplo, com a melhor biografia até agora disponível de autoria de Roy Jenkins, com cerca de 900 páginas, escrita aos oitenta anos do autor.  O texto de Paul Johnson é precioso, dinâmico, retratando com
vigor o verdadeiro turbilhão que foi a vida de Churchill, personagem singular e relevante na Inglaterra e no mundo, sobretudo na Segunda Guerra Mundial, entre l939-1945. Fala-se de que o livro foi uma encomenda da editora para apresentar e familiarizar os jovens com o maior estadista do século 20.  Criança esperta e saudável, filho de pais ilustres, desenvolveu trajetória política vertiginosa, meteórica, conturbada e repleta de conflitos e rixas.  Orador destacado e impressionante, aperfeiçoou fluência na língua inglesa escrita e falada: era um cuidadoso dominador das palavras, um verdadeiro ¨mestre, um virtuose em seu uso¨.  Ao final de sua vida, calcula-se que Churchill tinha acumulado a publicação de cerca de 10 milhões de palavras, mais do que a maioria dos escritores profissionais. Ainda cedo, quando indagado sobre a que atribuía seu sucesso na vida, respondeu: ¨Preservação da energia. Nunca ficar de pé quando pode sentar e nunca sentar quando pode deitar¨. Ele curtia o hábito de ¨trabalhar pela manhã na cama, falando ao telefone, ditando e consultando.¨ A despeito disso, nunca se furtou ao trabalho pesado propriamente dito,numa jornada muitas vezes habitual de dezesseis horas por dia. O texto do autor, Paul Johnson, nos faz sentir participantes pessoais da vida eletrizante de Churchill, como se estivéssemos em companhia do personagem. As descrições da época da Segunda Guerra Mundial são raras e imperdíveis, coroadas no livro com a indicação dos dez pontos essenciais para responder sim à pergunta sobre se Churchill salvou pessoalmente a Inglaterra. Vale a pena aprofundar esses dez pontos essenciais, mostrados no capítulo 6 – Poder Supremo e Frustração.  Outro ponto alto do texto, logo em seguida ao êxito final da guerra é o que fala da reação da esposa de Churchill,|Clementine, ao comentar o resultado desastrado das eleições de l945, com a derrota de Churchill: ¨Talvez seja uma benção disfarçada¨. Johnson expõe, com riqueza de detalhes,as diversas formas com que essa crença se justificou, na prática: Churchill foi poupado da agonia de ¨presidir a uma dramática mas inevitável contração do poder global da Inglaterra¨( a nação emergiu exaurida do conflito e empobrecida);  o governo trabalhista no poder não hesitou na concessão da independência à Índia, dividida em duas partes, a hindu e a muçulmana, com terríveis massacres;Churchill foi também poupado de presidir ao nascimento de Israel, a de3speito de ser ardoroso sionista; Churchill considerou uma sorte a guerra da Coréia acontecer no governo trabalhista; a derrota de Churchill na eleição de l945 foi também uma benção por aliviar a sua carga de trabalho, o que evitou sua morte mais cedo, segundo os médicos. Churchill faleceu em 27 de janeiro de l965. No final, vê-se que o resumo de sua vida foi valiosíssimo: aos 90 anos, Churchill passou 55 como membro do parlamento, 31 como ministro e quase 9 no cargo de primeiro-ministro;  participou de l5 batalhas, foi figura relevante na Primeira Guerra Mundial e teve atuação destacada na Seunda Guerra Mundial ; foi autor privilegiado, com cerca de 10 milhões de palavras publicadas e foi pintor de mais de 500 telas; reconstruiu imponente propriedade particular, com magnífico jardim com três lagos; recebeu o Prêmio Nobel de Literatura e inúmeras comendas e honrarias.  Assim, Winston Churchill teve uma vida plena,e poucas pessoas talvez possam igualá-la  -  em escopo, variedade e sucesso em tantas frentes.¨  Recomendo!     Sinceramente,

quinta-feira, 31 de março de 2011

Livro - Ligeiramente fora de foco

Brasília, 31 de março de 2011.

Encerrei hoje a leitura de “Ligeiramente fora de foco”, do renomado correspondente de guerra, escritor e fotógrafo Robert Capa (1913-1954): Editora CosacNaify, 1947-2010, 296 páginas. Trata-se de texto de 1947, até agora inédito no Brasil, revelando o maior fotógrafo de guerra da história, que sempre desejou ser 1º escritor e que se mostra, no livro, disposto a tudo: “Sou um jogador”, disse para explicar a sua decisão de enfrentar o “ coração das trevas”. Explicou: “O correspondente de guerra tem a sua aposta (sua vida) nas próprias mãos e pode colocá-la neste ou naquele cavalo, ou pode colocá-la de volta no bolso no último minuto.” No seu trabalho intenso e determinado, Robert Capa adotava a regra que indicava a seus colegas fotógrafos: “Se suas fotos ainda não estão boas o suficiente, é porque você ainda não está perto o suficiente”. Capa desenvolve o texto de forma bem humorada, com ironia e espírito de jogador de pocker, defrontando-se com os perigos e mostrando cenas que ninguém mostrou. Enfrentou terrenos minados, “largou amores pelo caminho para captar imagens na Guerra Civil da Espanha, na China e no palco europeu da Segunda Guerra Mundial”. No prefácio de 1999, o seu irmão, Cornell Capa, diz: “A vida de Robert Capa é o testamento de dificuldades superadas, um desafio enfrentado, um jogo ganho, a não ser pelo fim, quando pisou numa mina terrestre na Indochina e seu papel como testemunha se encerrou.” O texto é leve, a despeito dos horrores da guerra. Capa participou de importantes eventos: a invasão da Sicília, o desembarque das tropas americanas nas praias da Normandia, a libertação de Paris. Charmoso e com bom astral, comprou uma elegante e cara capa inglesa, Burberry, para assinalar a chegada ao famoso Dia D, o que ao final não se concretizou, por ter que abandoná-la no sufoco da invasão. São significativas as passagens descritas com os seus amigos Ernest Hemingway e John Steinbeck: chegou a participar de um exército improvisado por Hemingway e foi parar na Rússia em viagem com Steinbeck. As fotos de Capa se inscrevem entre as melhores da guerra: “A série do desembarque do Dia D é quase um cinema, cada imagem abre uma sequencia na nossa cabeça. Você praticamente imagina como o soldado vai atacar o inimigo.” No texto, Robert Capa define as fotos como “ligeiramente fora de foco, um pouco subexpostas e a composição não é nenhuma obra de arte.” Ia esquecendo: Robert Capa namorou a linda e famosa artista de cinema Ingrid Bergman. No meio de tudo, desenvolve-se uma sutil história de amor – Capa, a inglesa Pinky e, de penetra, o amigo Chris. A revista britânica Picture Post qualificou Capa como “o maior fotógrafo de guerra do mundo.” Em 25 de maio de 1954, acompanhando um grupo de soldados franceses no Japão, Robert Capa pisou numa mina terrestre, que o matou. A meu ver, texto e fotos inesquecíveis.
Grande abraço para todos.
Antonio A. Veloso

sábado, 12 de março de 2011

Livro - “Mauá”, de autoria de Jorge Caldeira

Brasília, 12 de março de 2011.


Li, somente agora mas com grande envolvimento e interesse, o excelente “Mauá”, de autoria de Jorge Caldeira:  Cia das Letras, 1995, 557 páginas. O autor, nascido em São Paulo (1955), foi editor da Folha de São Paulo e das revistas Isto É e Exame, tendo desenvolvido cuidadosa e ampla pesquisa para elaborar o texto do “Mauá”, importante referência para economistas, executivos e historiadores. A narrativa é forte e sedutora, mostrando com objetividade o caminho percorrido por um pioneiro do Império, o maior e mais curioso empresário da época: Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889), barão e visconde de Mauá. As muitas biografias disponíveis sobre Mauá, fortemente inspiradas na sua preciosa “Exposição aos credores”, adotam a estrutura desse documento para explicar a trajetória do empresário, ou seja: a história de Mauá é apresentada como uma sequência natural das histórias de suas empresas. Jorge Caldeira, diferentemente, com grande determinação e esforço de pesquisa e organização, procura fugir desse arranjo e compor uma “visão cronológica global”. Com sucesso, apresenta uma visão além de tudo dinâmica e prazerosa. A cena inicial do texto, com Mauá aos 47 anos de idade, chegando na residência do Rio de Janeiro às quatro horas da tarde e submetendo-se ao assédio rotineiro dos filhos em busca de balas e guloseimas, é emblemática e reveladora do estilo do pai de família e líder. São muitas as revelações do texto, com fortes implicações sobre a história do país, sobretudo no II Império, com D. Pedro II, as armações políticas, as inúmeras guerras no Rio da Prata (Uruguai, Paraguai, Argentina), o tráfico de escravos, o crescimento do comércio, inclusive com o exterior, o florescimento das operações financeiras e cambiais, o nascimento da indústria. Liderando tudo, as iniciativas pioneiras de Mauá, estudioso, autodidata, equilibrado e correto, preocupado com o desenvolvimento e crescimento do Brasil. É mostrada toda a evolução de suas atividades e riqueza: de oficce boy a empresário destacado, com 17 empresas instaladas em seis países (Brasil, Uruguai, Argentina, Estados Unidos, Inglaterra, França), incluindo bancos, três estradas de ferro, uma grande companhia de navegação, a maior fábrica do país (fundição com 700 operários), empresas de comércio exterior, mineradoras, usinas de gás, fazendas de criação de gado e outras. Em 1867, dispunha de 115 mil contos de réis de ativos (cerca de US$ 60 milhões), em comparação com 97 mil contos de réis do orçamento do Império. Casado aos 27 anos com sobrinha de 15 anos, Maria Joaquina, tiveram 18 filhos. Nas crises e dificuldades empresariais, a grande preocupação de Mauá era preservar o seu nome, assegurando todos os pagamentos aos credores, meta que conduziu até o desenlace da falência, quando recebeu a decisão final de não ser falência criminosa, mas fortuita. “Com 65 anos de idade, cumpria até o fim a promessa de empenhar até a camisa, as botas e o chapéu velho para pagar os credores.” Leitura obrigatória, de qualidade.
O abraço amigo do
Antonio A. Veloso